sexta-feira, 3 de maio de 2013


O Explorador


“Tudo se tornou escuro de repente, os dias perderam seu brilho se tornando fosco como velha fotografia de dias chuvosos, a noite não tinha mais seu brilho de luzes coloridas e faróis, não tínhamos para onde correr, para onde fugir ou se esconder. O furor da noite nos consumia”

Foi como se uma estrela explodisse no meio da cidade naquele dia a quilômetros de distância, seu barulho e seu impacto foi tão próximo que quase me ensurdeceu e um calor que nunca havia sentido se aproximou e roçou meu corpo, a janela partida com os pedaços flutuando pela sala como se tivessem vida própria até se partirem contra a parede em mais pedaços, se espalhando pelo chão, somente tive tempo de por as mãos a frente do rosto antes de se prenderem pedaços de vidro sobre minhas vestes e sobre as partes expostas do meu corpo, foi doloroso.
O prédio balançou como se perdesse um dos alicerces quando a onda de choque foi adiante, a maior parte do lado leste de onde vinha a explosão ficou semidestruída, os vidros partidos, as colunas ruindo, do quarto andar não é uma queda muito agradável quando toneladas de vidros e concreto virão em seguida, as escadas eram a única solução, me apressei pois não seria o único a tentar escapar daquele desmoronamento. As escadas já estavam um pandemônio quando alcancei a porta da saída de emergência, eram escadas largas, mas o caos que estava pareciam diminui-las a um filete, intransitável, tentei imaginar centenas de formas heroicas de sair dali, o fosso do elevador, pulando sobre as pessoas no caminho, fazer rapel no prédio pênsil, todas as opções não cediam a um sujeito normal como eu, um tanto sedentário e trabalhador de escritório a tempos, não estava na minha melhor forma física e sem preparação atlética, a solução era esperar entrando no meio do caos e tentando fazer as pessoas a minha frente andarem um pouco mais rápido, o prédio não iria ficar em pé muito tempo.
O edifício se inclinou mais, e começava a envergar perigosamente, as pessoas entraram ainda mais em pânico, e eu controlando a respiração para não enlouquecer como o restante dos que ali se encontravam. Com custo consegui chegar ao final da saída de emergência e procurei me afastar o máximo possível dali. Olhei na direção que havia visto a explosão, e outros prédios estavam vindo ao chão, caídos, ou começando a inclinar. Corpos espalhados por todos os lados, pessoas correndo e se afastando daquele lugar, o calor ainda estava intenso e sufocante, uma névoa clara e ardente caia em volta, me abriguei precariamente com uma jaqueta pesada que encontrei próximo de alguns corpos, vi as pessoas indo em direção a estação de metrô que passava abaixo dali e corri naquela direção. Olhei para traz e vi que o prédio onde estava agora vinha caindo, e com horror contemplei que algumas pessoas ainda tentavam sair antes de serem encobertas pelas toneladas de concreto. Desviei o olhar, e com lágrimas nos olhos continuei em frente, as pessoas corriam a procura de um lugar coberto.
A estação estava cheia, havia muitas pessoas feridas, alguns paramédicos e algumas pessoas ajudando-os, pessoas chorando por entes e amigos perdidos, não tinha notícia de familiares e nenhum amigo visível neste caos, preferia é claro que estivesse com alguma companhia neste momento, mas somente poderia lamentar por estar distante. Quando encontrei um lugar para me acomodar peguei o aparelho celular para fazer um telefonema, mas estava desligado, justo nas horas que mais se precisa esses aparelhos são inúteis, conferi o telefone público que milagrosamente estava vazio no momento, mas havia uma explicação do por que, estava também desligado. Olhei o relógio de pulso digital e também estava desligado, para surpresa, a minha volta tentava encontrar se havia alguém usando algum aparelho celular, mas todos que pegavam, via-os devolverem inconformados para os bolsos sem nenhum sinal.
Se nenhum aparelho elétrico ou eletrônico estava ligado, logo não haveria energia elétrica para mover os trens da linha do metrô, mas ainda assim e arriscado colocar os pés na linha elétrica que se passa no mesmo nível das rodas dos vagões somente acreditando na minha suposição, e longe de mim fazer alguém se colocar a experimento. Teria que encontrar uma maneira alternativa de testar minha hipótese.

Já se encontrava ali por algumas horas, e não aparecia nenhum trem ou qualquer movimentação no túnel do metrô, as portas de vidro estavam fechadas para evitar que a radiação residual continuasse a entrar no local, estava se tornando sufocante. O sistema de ventilação também estava desligado, começava a cair o crepúsculo e a escuridão se tornava mais intensa ali naquele lugar no subsolo, não tinha medo do escuro, mas a ideia de dormir sem o amparo da luz, em nenhum lugar me dava uma pontada de preocupação e não me agradava, caminhei me esbarrando pela estação na tentativa e quando fechava os olhos a cada respirar, me vinham visões terríveis do que havia passado há poucas horas atrás na superfície, agora tudo estava silencioso, parece o comportamento típico humano diante de uma tragédia sem precedentes escolher o silêncio, ou talvez esteja pretencioso de minha parte julgar, e onde estamos sejamos totalmente desconhecidos.
Algumas pessoas estavam dormindo pelos cantos daquela estação lotada, procurei um abrigo onde me recostar e finalmente conceder um descanso para as pernas, na verdade meu corpo todo estava cansado, enfim consegui com alguma dificuldade encontrar uma fina fresta entre duas mulheres, que finalmente não ofereceram relutância que eu me acomodasse ali. Logo quando me acomodei ali mesmo ao chão, a costas contra a parede preguei os olhos em sono.

Um grito me alcança a distante sono, não despertei de imediato imaginando que fosse fruto de minha mente cansada, mas aos poucos fui abrindo os olhos e mais gritos ecoavam pela estação, me forcei a despertar, mas se tornava custoso abrir os olhos, algumas pessoas passaram tão próximo quase me atropelando o que por sorte eu estava bem encostado a parede, e eles simplesmente esbarraram em mim. Começava um agito infernal ali e pessoas gritando, gritos de dor que logo se calavam e começava em outros tons, o que creio que eram pessoas diferentes, alguma coisa estava empurrando as pessoas mais para dentro da estação e eu já estava ficando sem espaço para me movimentar, reuni todas as minhas forças para levantar rapidamente, não sabia o que estava acontecendo, “o vidro se partiu” ouvia alguns falarem, “o que são essas coisas” ouvia outros, olhei para os lados e consegui vislumbrar de relance algumas pessoas se jogarem no trilho, e percebi que andavam ilesas, era minha teoria se comprovando, me espremi entre as pessoas que estavam entre mim e os trilhos do metrô e desci ainda com um pouco de receio e cautela, algumas pessoas vieram em seguida, a linha estava realmente sem energia quanto escorreguei um dos pés e esbarrei um pouco na linha de elétrica, levantei cambaleante em meio a escuridão com alguém me levantando pelo braço, “você está bem”, veio a voz masculina da escuridão, respondi em seguida “sim, obrigado”, ele retornou a mim, “você sabe o que estava ocorrendo na estação?”, “não” foi a única coisa que consegui dizer naquele momento, e minha mente em polvorosa tentava definir e calcular os últimos gritos que alcançavam aqueles que estava perdidos naqueles tuneis escuros do metrô.

Nenhum comentário:

Postar um comentário