O Explorador
“Tudo se tornou
escuro de repente, os dias perderam seu brilho se tornando fosco como velha
fotografia de dias chuvosos, a noite não tinha mais seu brilho de luzes
coloridas e faróis, não tínhamos para onde correr, para onde fugir ou se
esconder. O furor da noite nos consumia”
Foi como se uma
estrela explodisse no meio da cidade naquele dia a quilômetros de distância,
seu barulho e seu impacto foi tão próximo que quase me ensurdeceu e um calor
que nunca havia sentido se aproximou e roçou meu corpo, a janela partida com os
pedaços flutuando pela sala como se tivessem vida própria até se partirem contra
a parede em mais pedaços, se espalhando pelo chão, somente tive tempo de por as
mãos a frente do rosto antes de se prenderem pedaços de vidro sobre minhas
vestes e sobre as partes expostas do meu corpo, foi doloroso.
O prédio
balançou como se perdesse um dos alicerces quando a onda de choque foi adiante,
a maior parte do lado leste de onde vinha a explosão ficou semidestruída, os
vidros partidos, as colunas ruindo, do quarto andar não é uma queda muito
agradável quando toneladas de vidros e concreto virão em seguida, as escadas
eram a única solução, me apressei pois não seria o único a tentar escapar
daquele desmoronamento. As escadas já estavam um pandemônio quando alcancei a
porta da saída de emergência, eram escadas largas, mas o caos que estava
pareciam diminui-las a um filete, intransitável, tentei imaginar centenas de
formas heroicas de sair dali, o fosso do elevador, pulando sobre as pessoas no
caminho, fazer rapel no prédio pênsil, todas as opções não cediam a um sujeito
normal como eu, um tanto sedentário e trabalhador de escritório a tempos, não
estava na minha melhor forma física e sem preparação atlética, a solução era
esperar entrando no meio do caos e tentando fazer as pessoas a minha frente
andarem um pouco mais rápido, o prédio não iria ficar em pé muito tempo.
O edifício se
inclinou mais, e começava a envergar perigosamente, as pessoas entraram ainda
mais em pânico, e eu controlando a respiração para não enlouquecer como o
restante dos que ali se encontravam. Com custo consegui chegar ao final da
saída de emergência e procurei me afastar o máximo possível dali. Olhei na
direção que havia visto a explosão, e outros prédios estavam vindo ao chão,
caídos, ou começando a inclinar. Corpos espalhados por todos os lados, pessoas
correndo e se afastando daquele lugar, o calor ainda estava intenso e
sufocante, uma névoa clara e ardente caia em volta, me abriguei precariamente
com uma jaqueta pesada que encontrei próximo de alguns corpos, vi as pessoas indo
em direção a estação de metrô que passava abaixo dali e corri naquela direção.
Olhei para traz e vi que o prédio onde estava agora vinha caindo, e com horror
contemplei que algumas pessoas ainda tentavam sair antes de serem encobertas
pelas toneladas de concreto. Desviei o olhar, e com lágrimas nos olhos
continuei em frente, as pessoas corriam a procura de um lugar coberto.
A estação estava
cheia, havia muitas pessoas feridas, alguns paramédicos e algumas pessoas
ajudando-os, pessoas chorando por entes e amigos perdidos, não tinha notícia de
familiares e nenhum amigo visível neste caos, preferia é claro que estivesse
com alguma companhia neste momento, mas somente poderia lamentar por estar
distante. Quando encontrei um lugar para me acomodar peguei o aparelho celular
para fazer um telefonema, mas estava desligado, justo nas horas que mais se
precisa esses aparelhos são inúteis, conferi o telefone público que
milagrosamente estava vazio no momento, mas havia uma explicação do por que,
estava também desligado. Olhei o relógio de pulso digital e também estava
desligado, para surpresa, a minha volta tentava encontrar se havia alguém
usando algum aparelho celular, mas todos que pegavam, via-os devolverem
inconformados para os bolsos sem nenhum sinal.
Se nenhum
aparelho elétrico ou eletrônico estava ligado, logo não haveria energia
elétrica para mover os trens da linha do metrô, mas ainda assim e arriscado
colocar os pés na linha elétrica que se passa no mesmo nível das rodas dos
vagões somente acreditando na minha suposição, e longe de mim fazer alguém se
colocar a experimento. Teria que encontrar uma maneira alternativa de testar
minha hipótese.
Já se encontrava
ali por algumas horas, e não aparecia nenhum trem ou qualquer movimentação no
túnel do metrô, as portas de vidro estavam fechadas para evitar que a radiação
residual continuasse a entrar no local, estava se tornando sufocante. O sistema
de ventilação também estava desligado, começava a cair o crepúsculo e a
escuridão se tornava mais intensa ali naquele lugar no subsolo, não tinha medo
do escuro, mas a ideia de dormir sem o amparo da luz, em nenhum lugar me dava
uma pontada de preocupação e não me agradava, caminhei me esbarrando pela
estação na tentativa e quando fechava os olhos a cada respirar, me vinham visões
terríveis do que havia passado há poucas horas atrás na superfície, agora tudo
estava silencioso, parece o comportamento típico humano diante de uma tragédia
sem precedentes escolher o silêncio, ou talvez esteja pretencioso de minha
parte julgar, e onde estamos sejamos totalmente desconhecidos.
Algumas pessoas
estavam dormindo pelos cantos daquela estação lotada, procurei um abrigo onde
me recostar e finalmente conceder um descanso para as pernas, na verdade meu
corpo todo estava cansado, enfim consegui com alguma dificuldade encontrar uma
fina fresta entre duas mulheres, que finalmente não ofereceram relutância que
eu me acomodasse ali. Logo quando me acomodei ali mesmo ao chão, a costas
contra a parede preguei os olhos em sono.
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