quarta-feira, 8 de maio de 2013


A Médica


“Uma voz me dizia, o dragão de fogo despertou, e consigo arrastou cidades inteiras para o abismo, o mundo se tornou diferente, e tudo que havia morto, vive, e o que vive, agora perece.”

Despertar... Como é difícil despertar, meu corpo dói como se tivesse caído... Espera, eu realmente cai, tento mover os pés, parece que estão normais, agora movimento as mãos e trago-as até o meu rosto, mas como está escuro, agora a pouco ainda parecia dia.
O ar está pesado, é difícil respirar, vagarosamente me levanto. Olho em volta e vejo a névoa espessa que recobre as ruas, os entulhos de prédios caídos, corpos espalhados pelas ruas muitos a minha volta todos sem vida “meu Deus o que aconteceu...” pensei comigo, sinto que onde a névoa toca parece queimar. Devo procurar um abrigo para sair desse nevoeiro não parece muito saudável ficar exposta a isto, me lembro que próximo daqui há uma estação de metro talvez com sorte consiga encontrar alguém pra saber o que andou acontecendo, corro procurando evitar as nuvens mais densas e me abrigando quando possível sob os toldos e algumas coberturas que encontro em condições pelo caminho e sem riso de desabamento, não consigo reconhecer nenhum dos pontos de referencia que costumava utilizar, esta tudo destruído, segui as placas que ainda restavam e por sorte encontrei a entrada para o subsolo em meio os entulhos dos prédios caídos, meus sentidos estavam atentos as quedas dos concretos e outros materiais que compunham os edifícios que continuavam a cair.
Na entrada tentei forçar a vista para enxergar o interior da estação, mas estava uma escuridão total, nenhum facho de luz, nenhuma luz emergencial funcionando, nada.
Analisei rapidamente ao redor tentando encontrar qualquer coisa que pudesse utilizar como lanterna, por fim mais uma tentativa sem sucesso.
Sem resistência e fugindo daquele nevoeiro comecei a descer as escadas com cuidado e mesmo assim tropecei sobre alguns escombros, ralando um pouco os braços e a coxa esquerda na queda, engatinhei até o final da escada, limpando o caminho com as mãos os destroços leves que encontrei.
Me recostei na escuridão em uma parede fria para descansar, o tornozelo estava dolorido com a queda além dos locais em que ralei que estavam ardendo, e na escuridão pude me sentir a vontade, mesmo não sendo tão reconfortante parecia-me um local seguro para ficar e tentar me lembrar o que aconteceu. Olhava para o que imaginava ser o teto sempre me certificando de ouvir algum barulho de que estivesse desabando, mas não ouvia por sorte. Quando tentei focar a mente para me lembrar, me vinha lembranças fragmentadas e desconexas, sem muita clareza, hora via de relance os rostos de meus últimos pacientes, lembrava que vi uma claridade incomum fora do consultório pela grande janela da sala de espera que dava a vista para a avenida abaixo, quando sai da sala de atendimento e fui próximo à janela, a memória se recusava a prosseguir.

Devo ter ficado ali sentada na escuridão por mais de duas horas, tentando encontrar uma logica entre minha lembranças alguma coisa que fizesse sentido e esclarecer o que aconteceu, que aonde minha memoria conseguiu checar era a partir da daquela claridade, a única ponta solta que poderia se tornar logica as minhas conclusões, o que era...
Resolvi parar de me castigar tanto para tentar me lembrar, precisava no momento descansar tanto a mente quanto o corpo que estavam alquebrados. Me restava rezar para que conseguisse acordar bem daqui algumas horas, talvez não tenha batido a cabeça na queda e me parece que não quebrei nenhum osso também, os diagnósticos dos primeiros socorros e exames de rotina eu realizei sem problemas, outros mais sofisticados e específicos necessitavam equipamentos complexos e precisos, os quais não tinha disponíveis no momento. Estava com dores musculares, lacerações nos braços e mãos, na coxa esquerda e joelhos, e uma luxação no tornozelo direito.
Aos poucos as pálpebras se tornaram pesadas, até sentir tudo a minha volta se tornar nebuloso e aparentemente etéreo, que aos poucos foi sumindo completamente dos meus sentidos adormecidos.

Um alto som faz-me sobressaltar do meu estado de semidormência, o coração palpita, levanto-me em um salto sem sentir os machucados pelo corpo, alguma coisa se move na escuridão, sinto um forte odor de pútrido no ar que me alcançam as narinas, despertando meu olfato, “que cheiro é esse” pensei, me mantenho em silencio na escuridão e agarro um pedaço do corrimão que minha mão alcançou e seguro com as duas mãos como se fosse um taco de beisebol, não sei o porque, mas meu instinto e inconsciente gritou e meu corpo executou prontamente e tão rapidamente que me alertava de algum perigo, deixei esses instintos me guiarem.
Me saltou à memoria que a saída não estava longe, praticamente estava ao lado da escada que dava para a avenida acima, o único problema era a quantidade de entulho que constatei quando descia as escadas e parecia que deveria correr, ao contrario da descida que mesmo com cuidado ainda me machuquei, inspirei fundo e comecei a correr degraus acima, vários pedregulhos rolaram pela escada chamando a atenção do que se movia na escuridão e de súbito senti algo vindo rápido em minha direção, subi em um bloco de pedra que parecia grande, olhei na direção da escuridão e nada vi. Em cima do bloco de pedra consegui ver o final da escada que era iluminada fracamente pela luz que parecia ser da manhã, quando me movi para disparar em direção à saída, algo agarrou com força minha perna, acertei com força com o pedaço de ferro o que parecia ser um braço, alguma coisa urrou de dor, procurei com a pouca iluminação o que havia atingindo, pensei no pior, talvez tenha acertado alguém que estava ferido e buscava socorro, o medo nos prega peças terríveis que nos fazem agir sem pensar, e o instinto me fez matar uma pessoa, mas o medo também me impedia de ver o que eu havia atingido, mas meu juramento de médica me fez voltar.
A luz não alcançava onde estava, e, além disso o bloco de pedra bloqueava qualquer chance da luz chegar onde havia caído a pessoa, descendo do bloco procurei por todo o chão próximo e não encontrei nada além de pedras e mais alguns pedaços de corrimão espalhados, realmente estranho, “será que estou delirando” sussurrei, com febre não estou, na minha cabeça nenhum dano externo, e não estou sentindo sintomas de algum dano interno no crânio ou alguma disfunção sensorial, dor, visão, audição, olfato, todos estão normais.
“Vou sair logo daqui, esse lugar que está brincando com minha mente” disse para mim mesma. Subi novamente o bloco de pedra enquanto tentava acalmar os pensamentos, ainda me sentia cansada e tensa, pulei para a escada do bloco e senti no tornozelo direito uma pontada de dor, e subi alguns dos degraus mancando, e após amenizar a dor subi o restante da escada até chegar à luminosidade desviando dos entulhos que agora eram visíveis e na luz constatei um pouco do estado que se encontrava, as poucas roupas estavam em frangalhos, meu corpo com escoriações em vários locais, meus cabelos parecia palha seca e com certeza me assustaria se pudesse ver meu rosto nesse momento.
Consegui sair para a superfície, a nevoa ainda estava densa e parecia mais causticante que anteriormente, retornei para o meio do primeiro lance da escada, onde a luz ainda chegava, não queria ficar mais nenhum minuto para a escuridão que aguardava abaixo aquele lugar me assombrava, optei por aguardar ali mesmo, por um tempo, até talvez aquela nevoa baixar, “ai então poderei voltar para casa...”, “que casa?”. Abaixei a cabeça e lamentei.

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